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O experimento ousado do Ira!: como ‘Psicoacústica’ desafiou os anos 80 e antecipou o futuro do rock nacional

Em 1986, o Ira! alcançou o auge da popularidade comercial no Brasil. Impulsionado por hinos geracionais como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta” e a balada acústica “Flores em Você” — que virou tema de abertura da novela global *O Outro* —, o álbum *Vivendo e Não Aprendendo* vendeu centenas de milhares de cópias e colocou o quarteto paulistano no primeiro escalão do BRock. Para a gravadora WEA, a rota estava traçada: bastava repetir a fórmula mod-rock direta, melódica e radiofônica. No entanto, o vocalista Nasi, o guitarrista Edgard Scandurra, o baixista Ricardo Gaspa e o baterista André Jung escolheram o caminho exatamente oposto.

Lançado em 1988, *Psicoacústica* permanece como um dos discos mais corajosos, complexos e incompreendidos da história do rock brasileiro. Em vez de entregar refrões fáceis para as rádios FM, o quarteto entrou nos estúdios Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, disposto a desconstruir a própria sonoridade com colagens sonoras, ecos de psicodelia, batidas quebradas, influências de dub jamaicano e os primeiros flertes do rock nacional com a cultura hip-hop.

### O caldeirão sônico nos estúdios Nas Nuvens

Produzido por Paulo Junqueiro em parceria com a própria banda, *Psicoacústica* refletia as inquietações artísticas de Edgard Scandurra e Nasi na virada daquela década. Ambos estavam atentos aos novos movimentos urbanos de São Paulo, onde a cultura da dança de rua e os bailes de rap começavam a ocupar a Estação São Bento e as periferias. Ao mesmo tempo, o quarteto consumia clássicos do reggae roots, dub e psicodelia britânica dos anos 1960.

O resultado foi um registro sonoro denso e arrojado. Em faixas como “Rubro Zelo”, o Ira! utilizou scratches de vinil executados ao vivo em estúdio pelo DJ Grandmaster Duda, um dos pioneiros do hip-hop paulistano. Tratava-se de uma inovação absoluta para uma banda do mainstream do rock brasileiro da época, anos antes de Chico Science & Nação Zumbi ou Planet Hemp popularizarem o diálogo simbiótico entre guitarras pesadas e toca-discos.

Outro elemento central da obra foi a técnica de colagem e sampleamento manual. Sem acesso aos samplers digitais de alta capacidade que dominariam os anos 1990, o grupo recorreu a fitas de rolo e gravações prévias inseridas cirurgicamente na mixagem. Em “Receita Para Se Fazer Um Herói”, a banda utilizou um poema satírico do escritor português Reinaldo Ferreira musicado sobre um ritmo sincopado. Em “Advogado do Diabo”, Nasi declama sobre uma linha de baixo hipnótica e distorcida, interpolando áudios históricos e discursos que criavam uma atmosfera claustrofóbica.

### O choque da indústria e a rejeição das rádios

Quando a fita master chegou aos escritórios da gravadora, a reação foi de espanto e frustração comercial. Executivos e programadores de rádio esperavam mais um lote de hits açucarados ou rocks enérgicos de três minutos. O que receberam foi um disco conceitual de apenas oito faixas, soturno, com introduções longas e arranjos repletos de delays e reverberações experimentais.

As emissoras de rádio deram as costas ao trabalho. A única faixa que obteve alguma execução modesta foi “Pegadas de Gigante”, ainda assim longe do sucesso avassalador dos lançamentos anteriores. Em termos de vendas imediatas, o álbum ficou muito aquém do disco de platina obtido por *Vivendo e Não Aprendendo*. Para a crítica imediatista da época e para o mercado fonográfico tradicional, o Ira! parecia ter cometido suicídio comercial.

### A redenção e o reconhecimento tardio

O tempo, contudo, costuma ser o melhor crítico de música. Com o passar dos anos e a chegada das décadas de 1990 e 2000, *Psicoacústica* passou a ser redescoberto por novas gerações de músicos, pesquisadores e ouvintes, tornando-se uma unanimidade cult.

A audácia do Ira! em quebrar as expectativas mercadológicas para criar uma obra artística autêntica revelou a verdadeira dimensão de sua maturidade musical. Enquanto muitas produções brasileiras de 1988 envelheceram presas aos timbres plásticos e às caixas com reverb característicos dos anos 80, *Psicoacústica* soa atemporal, orgânico e instigante. O disco provou que o rock brasileiro podia ser experimental, dialogar com a literatura e absorver a vanguarda das ruas sem perder o vigor da contestação.

Mais do que uma simples guinada de carreira, *Psicoacústica* foi a declaração de independência do Ira!, consolidando Edgard Scandurra como um dos arranjadores mais inventivos da história do instrumento no país e deixando um legado indelével para todo o rock alternativo que viria a seguir.

Fontes consultadas:
– Dapieve, Arthur. *BRock: O Rock Brasileiro dos Anos 80*. Editora 34, 1995.
– Alexandrino, Enor Paiano. Entrevistas históricas e arquivos de imprensa sobre o rock paulista (Revista Bizz, 1988).
– Documentário e entrevistas do acervo oficial da banda Ira! e Canal Brasil sobre as sessões de gravação de *Psicoacústica*.

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