Psicoacústica: 4 segredos por trás do álbum mais ousado e experimental do Ira!
Lançado em 1988, ‘Psicoacústica’ permanece como um dos projetos mais audaciosos e vanguardistas da história do rock nacional. Vindo do estrondoso sucesso comercial de ‘Vivendo e Não Aprendendo’ (1986), o Ira! tomou uma decisão arriscada: em vez de repetir a fórmula pop-punk dos sucessos anteriores, a banda mergulhou em experimentos sonoros, colagens, rap e psicodelia.
1. Pioneirismo no uso de samplers no rock brasileiro:
Inspirado pela efervescência do hip-hop que começava a tomar conta de São Paulo, o guitarrista Edgard Scandurra comprou um sampler Akai S900. O quarteto começou a colar trechos de diálogos de rádio, sirenes e baterias eletrônicas, antecipando uma tendência que dominaria a música dos anos 1990.
2. Homenagem à Clementina de Jesus em ‘Receita para se Fazer um Herói’:
Uma das faixas mais marcantes do disco utiliza o poema do português Reinaldo Ferreira e insere um sample da lendária cantora de samba Clementina de Jesus entoando um verso tradicional. Essa colisão entre a voz ancestral da música negra brasileira e o pós-punk urbano mostrou que o Ira! não tinha fronteiras estéticas.
3. As guitarras invertidas de Edgard Scandurra:
Famoso por tocar guitarras de destro mesmo sendo canhoto (sem inverter as cordas), Scandurra levou a criatividade ao extremo nas gravações no lendário estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Em faixas como ‘Rubro Zorro’, ele gravou solos inteiros de trás para frente, criando texturas oníricas e psicodélicas raras no cenário pop da época.
4. Inspiração na cultura pop e no cinema de faroeste:
A épica ‘Rubro Zorro’ mescla a agressividade rítmica do rock com referências explícitas às trilhas de Ennio Morricone para os faroestes italianos e a histórias em quadrinhos de justiceiros mascarados, refletindo o clima de tensão urbana e crise econômica do Brasil no final da década de 1980.
Embora tenha vendido menos que o disco anterior no momento de seu lançamento, ‘Psicoacústica’ envelheceu como uma verdadeira obra-prima do rock brasileiro, provando que o quarteto paulistano colocava a integridade artística e a inovação à frente de qualquer comodismo comercial.
