O disco que revolucionou o rock nacional: Como ‘Selvagem?’ dos Paralamas reinventou a música brasileira em 1986
Em meados da década de 1980, o rock brasileiro vivia uma efervescência sem precedentes. O sucesso estrondoso da primeira edição do Rock in Rio, em 1985, consagrou uma nova geração de músicos que arrastava multidões e dominava as execuções nas rádios FMs. No entanto, havia uma armadilha mercadológica no ar: a tendência de copiar a sonoridade do post-punk britânico e do new wave americano. Foi exatamente nesse cenário que Os Paralamas do Sucesso tomaram uma das decisões mais ousadas da história da nossa música ao lançarem, em maio de 1986, o álbum Selvagem?.
Longe de repetir a receita de sucesso do aclamado O Passo do Lui (1984), que trazia hits imediatos como ‘Meu Erro’ e ‘Óculos’, o trio formado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone decidiu desacelerar e olhar para dentro. O resultado foi um divisor de águas que não apenas salvou a banda do estigma de ‘passageira’, mas redefiniu os rumos estéticos do rock feito no Brasil.
### A ruptura com a fórmula do new wave
Após a marcante apresentação no Rock in Rio de 1985, onde tocaram para milhares de pessoas usando bermudas e mostrando uma energia avassaladora, a cobrança sobre o próximo passo dos Paralamas era gigante. A gravadora EMI-Odeon esperava mais um disco de canções pop puras e diretas. Herbert Vianna, contudo, estava incomodado com as limitações do formato.
Influenciados pelo reggae de Bob Marley, pelo dub jamaicano, pelo ska do grupo britânico The Beat e, principalmente, pela riqueza dos ritmos afros e da MPB, o grupo começou a experimentar no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. A contratação do produtor Liminha foi fundamental: ele trouxe a visão técnica para fundir guitarras pesadas e baixos marcantes com colagens de som, sopros alucinantes e percussões tipicamente brasileiras.
### A capa icônica e o manifesto visual
A provocação do trabalho já começava no título e na capa. A interrogação no nome (Selvagem?) questionava quem realmente eram os ‘selvagens’ em uma sociedade marcada pela desigualdade social e pelo preconceito.
A fotografia da capa, clicada por Mauricio Valladares na região da Amazônia, trazia Pedro Ribeiro, irmão do baixista Bi Ribeiro, sem camisa e segurando um pedaço de madeira no meio da vegetação. A imagem fugia completamente do padrão urbano e cosmopolita que ilustrava os discos do rock oitentista da época. A gravadora inicialmente torceu o nariz, considerando a escolha pouco comercial, mas a banda bateu o pé e manteve a visão artística original.
### Um repertório de clássicos e engajamento social
Selvagem? abria com ‘Alagados’, uma faixa explosiva que traçava um paralelo entre a favela da Maré no Rio de Janeiro, a favela de Alagados em Salvador e a cidade de Joanesburgo na África do Sul, escancarando as feridas do apartheid e da miséria social. Com um riff marcante e uma cozinha impecável de baixo e bateria, a música se tornou um hino instantâneo.
Outro momento histórico do álbum foi a parceria com Gilberto Gil em ‘A Novidade’. A letra, escrita em conjunto com Gil, abordava a dualidade da sereia que sai do mar para ver a miséria do mundo dos homens, transformando uma metáfora poética em uma crítica social profunda. O disco ainda trazia a regravação de ‘Você’, de Tim Maia, mostrando que o rock e a soul music brasileira caminhavam de mãos dadas, além de releituras provocativas como ‘Ska’ e a emblemática faixa-título ‘Selvagem’.
### O legado incontestável
Com mais de 700 mil cópias vendidas na época de seu lançamento, Selvagem? provou que o público brasileiro estava faminto por originalidade. O álbum abriu portas para que outras bandas do cenário nacional passassem a incorporar elementos de ritmos regionais, samplers e influências caribenhas em suas composições — um movimento que, anos depois, ganharia novas proporções com o Manguebeat em Pernambuco.
Ao misturar a energia do rock com a pulsação do reggae e da música negra brasileira, Os Paralamas do Sucesso entregaram não apenas o melhor disco de sua carreira, mas uma obra-prima atemporal que continua influenciando gerações de músicos quatro décadas após a sua estreia.


