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A revolução de ‘Roots’: Como o Sepultura uniu a tribo Xavante ao metal mundial

Em meados da década de 1990, o heavy metal mundial passava por uma crise de identidade. Com a ressaca do movimento grunge e a ascensão de novas vertentes do rock alternativo, as bandas tradicionais de metal buscavam novas formas de se reinventar. Foi exatamente nesse cenário de transição, em 1996, que uma banda nascida em Belo Horizonte entregou um dos discos mais audaciosos, influentes e originais da história da música pesada: ‘Roots’, do Sepultura.

Mais do que um mero lançamento comercial, ‘Roots’ foi um manifesto cultural. O sexto álbum de estúdio do quarteto — então formado por Max Cavalera, Igor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Xisto — não apenas fincou o nome do Brasil no topo da cena mundial do rock, mas redefiniu os limites do que poderia ser feito ao misturar guitarras pesadas com percussão orgânica e ancestralidade indígena.

### A imersão na Aldeia Xavante e a busca pela ancestralidade

A ideia de incorporar elementos da cultura indígena brasileira ao som do Sepultura começou a ganhar força durante a turnê do álbum anterior, ‘Chaos A.D.’ (1993), que já trazia percussões em faixas emblemáticas como ‘Kaiowas’. No entanto, para ‘Roots’, a banda queria ir muito além de uma simples amostragem sonora em estúdio.

Inspirado pelo filme ‘Brincando nos Campos do Senhor’ e movido pelo desejo de resgatar as raízes profundas do país, Max Cavalera idealizou uma viagem ao coração do Brasil. Com o apoio da Funai, a banda e o produtor norte-americano Ross Robinson viajaram até o Mato Grosso para passar dias em convivência direta com os índios Xavante na aldeia Pimentel Barbosa.

O resultado dessa imersão cultural inédita foi a gravação da faixa ‘Itsári’ (‘Cura’ no idioma Xavante). Gravada ao ar livre, no meio da aldeia, a canção registra o canto tradicional de cura dos Xavantes acompanhado pelos violões acústicos de Andreas e Max e pelas percussões de Igor. O momento capturou uma energia ritualística e crua que se tornou o coração conceitual do disco.

### Percussão baiana, afinação pesada e o toque de Carlinhos Brown

Além da presença indígena, ‘Roots’ trouxe uma forte conexão com os ritmos afro-brasileiros. A banda convidou o músico e percussionista baiano Carlinhos Brown para colaborar na criação e execução de diversas faixas. Brown trouxe para o estúdio em Malibu uma vasta gama de instrumentos tradicionais, como berimbaus, timbaus, agogôs e apitos, integrando-os de forma orgânica às guitarras com afinações extremamente graves e ao ritmo avassalador da bateria de Igor Cavalera.

Faixas como ‘Ratamahatta’ exemplificam perfeitamente essa fusão. Com vocais divididos entre Max Cavalera, Carlinhos Brown e participações de Mike Patton (Faith No More), a música é um caos percussivo enriquecido por letras em português que citam figuras do folclore e da história popular brasileira, como Zé do Caixão, Lampião e Maria Bonita.

O produtor Ross Robinson, conhecido por trabalhar com uma estética sonora crua e emocionalmente visceral, foi fundamental para extrair da banda performances físicas e intensas. O som resultante era denso, grave, suingado e incrivelmente pesado, criando a base para o que o mercado musical viria a consolidar como o nu metal, influenciando diretamente bandas como Slipknot, Korn, Deftones e System of a Down.

### O impacto global e a separação no auge

Lançado em fevereiro de 1996 pela gravadora Roadrunner Records, ‘Roots’ foi um sucesso estrondoso de crítica e público. O álbum vendeu mais de dois milhões de cópias pelo mundo, conquistou discos de ouro e platina em diversos países e colocou o Sepultura nos principais palcos e festivais do planeta, rivalizando em popularidade com os maiores gigantes do rock mundial.

Grandes nomes da música expressaram admiração pública pelo projeto. Dave Grohl, líder do Foo Fighters e ex-baterista do Nirvana, declarou em diversas ocasiões que o som de bateria de ‘Roots’ era um dos mais poderosos que já tinha ouvido na vida. O impacto cultural do álbum provou que o rock brasileiro não precisava mimetizar a fórmula anglo-saxônica para alcançar relevância global; pelo contrário, foi ao olhar para dentro e abraçar sua identidade étnica e percussiva que o Sepultura atingiu o ápice.

No entanto, o paradoxo de ‘Roots’ reside no fato de ter sido o ápice criativo e, ao mesmo tempo, o capítulo final da formação clássica da banda. No final de 1996, no auge do sucesso da turnê mundial, tensões internas e divergências de gestão culminaram na saída do vocalista e guitarrista Max Cavalera, fragmentando a formação que havia conquistado o mundo.

### O legado de um divisor de águas

Mesmo décadas após seu lançamento, ‘Roots’ permanece como um monumento inabalável na história do rock e do metal brasileiro. O disco provou que o peso da música não reside apenas na distorção das guitarras, mas na intensidade da intenção e na riqueza das raízes culturais incorporadas ao som.

Ao unir a visceralidade do heavy metal à energia ancestral dos povos originários e dos ritmos percussivos do Brasil, o Sepultura assinou uma das páginas mais ousadas e originais da música internacional, deixando um legado que continua a ecoar e a inspirar novas gerações de músicos ao redor do globo.

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