Isso é Rock Brasileiro

Vivendo e Não Aprendendo: Como o Ira! Lapidou a Poesia Urbana do Rock Paulista em 1986

No ano de 1986, o rock brasileiro vivia o seu ápice comercial e criativo. Enquanto a cena do Rio de Janeiro projetava um som solar e influenciado pelo pop e pelo reggae, a produção musical de São Paulo carregava uma atmosfera mais sombria, urgente e profundamente ligada ao cotidiano metropolitano. No centro desse movimento, a banda Ira! lançava seu segundo álbum de estúdio, ‘Vivendo e Não Aprendendo’, uma obra que não apenas definiu a estética mod e pós-punk no Brasil, mas também estabeleceu um novo patamar para o lirismo urbano na música popular brasileira.

Formado no início dos anos 1980 por Marcos Valadão (o Nasi) nos vocais e Edgard Scandurra na guitarra, o Ira! carregava em suas raízes a herança direta da primeira onda do punk paulistano. No entanto, ao contrário de uma agressividade puramente panfletária, o grupo evoluiu para uma sonoridade sofisticada. Scandurra, um guitarrista canhoto que toca com o instrumento invertido sem trocar a ordem das cordas, desenvolveu um estilo marcado por dedilhados rápidos, arpejos melódicos e riffs cortantes, fortemente influenciado por bandas britânicas como The Jam, The Who e Echo & the Bunnymen. Com a consolidação da formação ao lado do baixista Ricardo Gaspa e do baterista André Jung (recém-saído dos Titãs), a banda alcançou um equilíbrio perfeito entre peso e melodia.

O contexto de criação de ‘Vivendo e Não Aprendendo’ reflete um momento de amadurecimento técnico e poético. Lançado pela gravadora WEA, o disco contrapôs a produção polida da época com uma sonoridade direta e visceral. As nove faixas do repertório funcionam como uma crônica da juventude urbana nos momentos finais da ditadura militar e na abertura política brasileira, abordando desilusões amorosas, angústias existenciais e a dura rotina nas grandes cidades.

A faixa de abertura, “Dias de Luta”, tornou-se instantaneamente um hino geracional. Com uma linha de baixo marcante e uma letra que fala sobre perseverança e o peso do tempo, a canção sintetizava a energia dos jovens que buscavam seu espaço na sociedade. Outro grande destaque do álbum foi a faixa “Flores em Você”. Em uma decisão ousada para uma banda de rock da época, a música utilizou um arranjo elegante de quarteto de cordas, idealizado pelo próprio Scandurra. A sensibilidade da composição fez com que ela fosse escolhida como tema de abertura da novela “O Outro”, da TV Globo, em 1987, projetando o Ira! em escala nacional sem que o grupo precisasse comprometer sua identidade sonora.

Uma das peculiaridades mais marcantes da produção do álbum foi a decisão de incluir duas gravações registradas ao vivo diretamente no alinhamento final do disco de estúdio. As faixas “Gritos na Multidão” e “Tarde Vazia” foram gravadas durante um show da banda na casa de espetáculos A Máfia, localizada em Vinhedo, no interior de São Paulo. A energia crua da performance ao vivo capturada nessas faixas integrou-se com perfeição ao restante do repertório. Em especial, “Tarde Vazia” ganhou uma interpretação vocal visceral de Nasi, tornando-se uma das músicas mais executadas nas emissoras de rádio do país naquele ano.

‘Vivendo e Não Aprendendo’ ultrapassou a marca de 250 mil cópias vendidas, garantindo ao Ira! seu primeiro disco de platina. Contudo, o impacto da obra ultrapassa os números de vendas. O álbum ajudou a construir a identidade estética do rock paulistano, influenciando diretamente diversas gerações do rock alternativo e do indie nacional nos anos seguintes. Ao transformar a cinza paisagem de São Paulo em poesia eletrizada, o Ira! provou que o rock feito no Brasil poderia ser comercialmente bem-sucedido sem abrir mão da densidade autoral e da postura crítica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Capa da música atual
Rádio RockBRA sua rádio, a qualquer hora
CLIQUE AQUI PARA OUVIR